O Livro da Sabedoria e o Paralelo com Hebreus

 



 O Livro da Sabedoria e o Paralelo com Hebreus

 

1. Quem Escreveu e Para Quem

 

O Livro da Sabedoria, ou "Sabedoria de Salomão", é tradicionalmente atribuído ao rei Salomão por conta de seu tom e estilo que refletem uma sabedoria régia. No entanto, muitos estudiosos apontam que ele provavelmente foi escrito por um judeu helenista anônimo em Alexandria, no Egito, por volta do século I a.C., num contexto onde a cultura grega influenciava profundamente o ambiente intelectual e espiritual. O autor parece direcionar suas palavras a judeus que, vivendo em um ambiente pagão e imerso em filosofia helenística, enfrentavam desafios para manter a fé e os ensinamentos da Lei de Moisés.

Ele é considerado um livro deuterocanônico (são livros do Antigo Testamento que foram considerados canônicos em um segundo momento, ou seja, depois do cânon judaico), somente estão na Bíblia Católica.

 

2. Contexto e Datação

 

A datação aproximada do livro é no final do século I a.C., em uma época de crescente influência helenística. A cidade de Alexandria era um centro de conhecimento, e os judeus ali residentes encontravam-se imersos em uma cultura que valorizava a filosofia e a razão. O livro, portanto, surge como uma resposta a essa realidade, com o objetivo de mostrar que a verdadeira sabedoria está em Deus e que a fé judaica oferece uma sabedoria superior a qualquer conhecimento humano.

 

3- Estrutura do Livro

a)    A Sabedoria e o destino do Homem (1,1-5,23) - Descreve a sorte diversa dos justos e dos ímpios, a luz da fé.

 

b)   Elogio da Sabedoria (6,1-9,18) - origem, natureza, propriedades e dons que acompanham a sabedoria (7,22-8,1), como personificação de Deus.

 

 

c)    A Sabedoria na História de Israel (10,1-19,22) - descreve a presença e a atividade da sabedoria em toda a História do povo de Israel com especial incidência sobre o Êxodo (11,1-19,17), em forma de Midraxe (é um método judaico de interpretação da Bíblia que consiste em recontar e releitura de uma narrativa, acrescentando detalhes)), e contrates que caracterizam o estilo desta terceira parte.

 

4. Paralelo entre Sabedoria e Hebreus

 

O Livro de Sabedoria e a Carta aos Hebreus têm semelhanças em seus temas centrais, especialmente no que diz respeito à exaltação da sabedoria divina e à importância da fé. Abaixo, exploramos esses paralelos de forma ampliada.

 

Pontos de Convergência

 

1. Superioridade da Sabedoria Divina: Ambos os textos reconhecem que a sabedoria que vem de Deus é superior a qualquer sabedoria humana. Em Hebreus, essa sabedoria é personificada na figura de Cristo, o Filho de Deus, descrito como "imagem do seu ser" e superior aos anjos. Já em Sabedoria, a sabedoria divina é apresentada como uma figura feminina, sendo "um sopro do poder de Deus" e uma "irradiação límpida da glória do Todo-poderoso" (Sabedoria 7,25-26).

 

2. Importância da Fé: A fé é um tema central em ambos os livros. Hebreus a define como "o fundamento da esperança" (Hebreus 11,1), e exemplifica a fé através de figuras do Antigo Testamento, como Abel, Enoque e Abraão. O livro da Sabedoria, embora não trate da fé de forma direta, demonstra sua importância ao mostrar os justos como aqueles que confiam em Deus e seguem Sua sabedoria, mesmo em meio a desafios e adversidades.

 

3. Recompensa dos Justos e Castigo dos Ímpios: Tanto Sabedoria quanto hebreus abordam a justiça divina e a ideia de que os justos serão recompensados. Em Hebreus, essa recompensa é a promessa eterna para aqueles que mantêm a fé em Cristo. Sabedoria, por sua vez, fala da imortalidade e felicidade que aguardam os justos, contrastando com o destino dos ímpios, que enfrentam o julgamento de Deus.

 

4. Deus como Criador e Sustentador do Universo: Ambos os livros afirmam a soberania de Deus sobre a criação. Hebreus diz que Deus criou o mundo por meio de Seu Filho, enquanto Sabedoria reconhece que Deus é o Criador e que Sua sabedoria governa o mundo.

 

Diferenças

 

1. Ênfase Cristológica: Hebreus coloca Cristo no centro de sua mensagem, apresentando-O como o Sumo Sacerdote e Mediador da Nova Aliança. Sabedoria, em contraste, não menciona diretamente Jesus Cristo; em vez disso, apresenta a sabedoria como um atributo divino. Esse contraste mostra que, enquanto hebreus tem um caráter explicitamente cristológico, Sabedoria oferece um entendimento mais universal sobre a sabedoria divina.

 

2. Contexto Histórico e Público-Alvo: Hebreus foi escrito para cristãos de origem judaica que enfrentavam perseguição e estavam em risco de abandonar a fé, e o autor busca fortalecê-los ao mostrar a superioridade da Nova Aliança. Sabedoria, por outro lado, foi escrito para judeus em um contexto de cultura helenística, encorajando-os a buscar a sabedoria divina em meio à filosofia grega.

3. Gênero Literário: Hebreus é uma epístola com elementos de sermão ou tratado teológico, sendo que a Teologia moderna, o considera um Sermão. Já Sabedoria é um livro poético e sapiencial, com um estilo mais alegórico e dramático.

 

 

5. A Influência da Sabedoria na Carta aos Hebreus

 

A Carta aos Hebreus parece refletir a influência da literatura sapiencial. Hebreus exalta Cristo como o "Esplendor da glória de Deus e a imagem do seu ser" (Hebreus 1,3), uma expressão semelhante à descrição da Sabedoria em Sabedoria 7,26, onde ela é descrita como "uma irradiação da glória do Todo-poderoso". Essa conexão sugere que o autor de Hebreus pode ter visto em Cristo a personificação da sabedoria de Deus.

Hebreus utiliza referências do Antigo Testamento, uma prática comum na literatura sapiencial, para ensinar sobre a fé e a ação de Deus. Além disso, a Nova Aliança em Cristo é apresentada como a "esperança melhor" (Hebreus 7,19), que ecoa a busca pela verdadeira sabedoria no Livro de Sabedoria, uma sabedoria que leva à imortalidade e a estar junto de Deus.

Vale ressaltar e também citar que tem paralelos do livro de Sabedoria, com outros do Novo Testamento, como: Romanos 11,34 e Sabedoria 9,13, Romanos 9,20-22 e Sabedoria 15,7, Mateus 27,39-43 e Sabedoria 2,17-22 e 2 Coríntios 5,1-9 e Sabedoria 9,10-18, só para citar alguns livros e confirmar a importância deste livro para o Novo Testamento.

 

 

Conclusão

 

O Livro da Sabedoria e a Carta aos Hebreus, cada um a seu modo, exortam os fiéis a buscar a sabedoria e a justiça divinas, realçando o valor da fé e da confiança em Deus. Enquanto Hebreus coloca Cristo no centro como o ápice da revelação divina, Sabedoria nos convida a ver a sabedoria como um caminho para a vida justa e plena. Esses textos nos lembram que, independentemente das circunstâncias, a fé e a sabedoria que vêm de Deus são superiores a qualquer conhecimento humano e nos conduzem à comunhão com o Criador.

E por fim, pode-se observar que o Livro de Sabedoria, foi muito importante e ajudou a dar base para a escrita de vários livros do Novo Testamento e por isto, é um livro de grande importância para o seu entendimento e leitura por todos os cristãos.

 

Referências:

 

Bíblia Sagrada- Difusora Bíblica

Por que as Bíblias Católicas são maiores? - Gary Michuta- Edições Cristo e Livros

 

Autor: Teologia, Bíblia e Doutrina da Igreja.


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