A Primeira Carta de São João e os Sacramentos: A Água, o Sangue e o Espírito Santo!
A Primeira Carta de São João e os Sacramentos: A Água, o Sangue e o Espírito Santo!
Por
@tbdoutrina
A Primeira
Carta de São João traz muitos elementos que a descrevem como um texto que
sustenta de forma robusta as verdades da Doutrina Católica. Neste artigo, será
analisado como São João, ainda que de modo tipológico, delineou em seu texto os
Sacramentos da Igreja Católica, de uma forma didática e catequética. A
linguagem sacramental está entrelaçada em seu propósito principal: fortalecer a
fé dos cristãos contra as heresias gnósticas e docetistas (que negavam a
verdadeira humanidade de Cristo) e aprofundar a comunhão (koinonia) com
Deus e com os irmãos.
As passagens
mais significativas que apontam para a realidade sacramental são as seguintes:
O Testemunho da Água e do Sangue: O Berço do
Batismo e da Eucaristia
O coração desta
reflexão pulsa no capítulo 5, onde São João faz uma afirmação de densidade
impressionante:
"Este é o
que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo; não só na água, mas na água e
no sangue. E o Espírito é quem dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade.
Assim, são três os que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue; e os três
estão de acordo." (1 Jo 5,6-8)
Naquele tempo,
falsos mestres afirmavam que o Cristo divino teria apenas "pousado"
sobre o homem Jesus em seu batismo (a água), abandonando-o antes da Paixão. Um
engano mortal! João afirma com veemência que a nossa salvação depende do Cristo
inteiro: Aquele que santificou as águas no Jordão e que derramou seu Sangue
redentor no Calvário.
Contudo, a
Igreja, guiada pelo mesmo Espírito que dá testemunho, sempre viu aqui muito
mais do que um fato histórico. Ela viu uma imagem perfeita dos rios de graça
que brotaram do lado aberto de Jesus na Cruz (Jo 19, 34).
A Água (ὕδωρ, hydor)
é a figura límpida do nosso Batismo. É nesta água sagrada que somos lavados do
pecado original, morremos para o homem velho e renascemos como filhos amados de
Deus. É a porta de entrada para a vida divina.
O Sangue (αἷμα, haima)
é o sinal inconfundível da Eucaristia. É o Sangue da Nova e Eterna Aliança, que
se torna presente em cada Missa para nos purificar, alimentar e unir-nos
intimamente ao sacrifício de amor de Jesus. Se o Batismo é o nosso nascimento,
a Eucaristia é o nosso sustento diário.
O Espírito (πνεῦμα, pneuma)
é a alma de toda a vida sacramental. Ele é invocado sobre a água batismal e
sobre o pão e o vinho na epiclese. Ele é o selo da nossa fé na Crisma. Sem o
Espírito Santo, os sacramentos seriam cerimônias vazias. Com Ele, são ações do
próprio Cristo.
Como nos ensina
o Catecismo, "A Igreja viu sempre uma prefiguração do Batismo e da
Eucaristia, sacramentos da vida nova, no sangue e na água saídos do lado
trespassado de Jesus crucificado" (CIC, §1225). Nossa vida de fé se apoia
nestes três testemunhos inabaláveis.
A Coragem de Confessar: O Eco do Sacramento da
Reconciliação
A vida cristã,
contudo, tem as suas batalhas. São João, com a sabedoria de um pai espiritual,
não nos ilude. Ele combate a orgulhosa ideia de que, uma vez na luz, não
pecamos mais. Com realismo e amor, ele nos aponta o caminho da cura:
"Se
confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados
e nos purificar de toda iniquidade." (1 Jo 1,9)
Que promessa
consoladora! A condição para receber a torrente da misericórdia divina é um ato
de profunda humildade: confessar (do grego homologein), que
significa "dizer o mesmo que" ou "concordar com" Deus sobre
a nossa realidade. É tirar as máscaras e dizer: "Sim, Senhor, eu pequei.
Preciso de Ti."
Nestas
palavras, ressoa a essência do Sacramento da Penitência. Embora a sua forma
litúrgica tenha se desenvolvido, o coração do sacramento está aqui: o encontro
da miséria humana com a misericórdia infinita, através da mediação da Igreja, a
quem Jesus soprou seu Espírito e disse: "Àqueles a quem perdoardes os
pecados, ser-lhes-ão perdoados" (Jo 20,23).
A confissão não
é um tribunal de condenação, mas uma enfermaria da alma, onde o Médico Divino
nos espera. Assim, na Confissão, renovamos nossa confiança de que temos um
advogado junto do Pai, Jesus Cristo, o Justo (1 Jo 2,1), cujo sacrifício tornou
este perdão possível.
A Unção que Permanece: O Selo da Crisma e o
Conforto na Enfermidade
Por fim, o
Apóstolo do Amor nos fala de um dom interior que nos protege e nos guia,
especialmente contra o erro: a unção.
"Vós,
porém, tendes uma unção (chrisma) que vem do Santo, e todos tendes
conhecimento. (...) a unção que d'Ele recebestes permanece em vós." (1 Jo
2, 20-27)
A palavra grega
aqui é chrisma, da qual deriva o nosso próprio nome: cristãos.
Somos ungidos porque pertencemos ao Ungido por excelência, o Christos.
Esta unção é a presença do Espírito Santo em nós, que nos dá uma espécie de
instinto da fé (sensus fidei) para discernir a verdade.
Esta unção
espiritual encontra sua expressão visível e poderosa em dois sacramentos de
cura e fortalecimento:
A Crisma (ou
Confirmação): É o
sacramento da unção por excelência. O óleo do Crisma, consagrado pelo Bispo,
nos marca como soldados de Cristo, selando em nós os dons do Espírito Santo
para que possamos testemunhar a fé com coragem e sabedoria. É esta unção que
ensina e nos firma na verdade.
A Unção dos
Enfermos: Também
aqui, a unção com o óleo sagrado é o sinal sensível da graça de Deus que vem em
auxílio da nossa fragilidade. Ela traz paz, coragem e consolo para enfrentar a
doença e, unindo o doente à Paixão de Cristo, concede o perdão dos pecados e a
força do Espírito Santo.
Um Convite a
Viver dos Sacramentos
Longe de ser um
tratado sistemático, a Primeira Carta de São João é um testemunho vivo de como
a vida da primeira comunidade cristã já pulsava ao ritmo sacramental. A água do
Batismo, o sangue da Eucaristia, o perdão na Confissão e a força da Unção não são
invenções posteriores; são dons que fluem diretamente do coração do Evangelho e
do mistério de Cristo.
A Palavra de
Deus e os Sacramentos não se opõem; eles dançam juntos na mesma sinfonia da
salvação. A Palavra anuncia o que os Sacramentos realizam. Que convite
maravilhoso para nós! Não encaremos os sacramentos como meras obrigações, mas
como aquilo que São João nos revela: fontes vivas onde encontramos o Cristo que
veio pela água e pelo sangue, o Cristo que nos perdoa e o Cristo que nos unge
com seu Espírito.
Que, pela
intercessão do Discípulo Amado, possamos descobrir e compreender melhor os
sacramentos da Igreja, pois eles são os sinais visíveis da Graça de Deus. Todos
eles foram deixados por nosso Senhor Jesus Cristo para a sua Igreja, reforçando
o que São Paulo nos diz em 1 Timóteo 3,15: a Igreja é a coluna e o sustentáculo
da verdade.
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