O mistério de Mateus 27,53 à luz da fé católica
O mistério de Mateus 27,53 à luz da fé católica
Os túmulos se abriram, e muitos corpos dos santos que tinham
adormecido foram ressuscitados. Saindo dos túmulos, depois da ressurreição de
Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos.
(Mt 27,52-53)
Poucos versículos do Evangelho despertam tanta curiosidade e
perguntas quanto este trecho de Mateus. Quem eram esses “santos”? Eles
receberam corpos gloriosos? Morreram de novo? Subiram ao céu com Cristo? Ou
tudo isso é apenas uma imagem simbólica?
Para responder com fidelidade à fé católica, é preciso
manter dois princípios:
- Respeitar
o que o texto bíblico afirma com certeza.
- Ler
aquilo que o texto não esclarece com a ajuda da Tradição, dos
Padres da Igreja, da teologia e do Magistério.
1. O que Mateus realmente diz e o que ele não diz
O ponto firme do Evangelho é este:
- Depois
da ressurreição de Jesus,
- muitos
corpos dos santos que dormiam foram ressuscitados,
- saíram
dos túmulos,
- entraram
na Cidade Santa (Jerusalém)
- e
apareceram a muitos.
Mateus não explica:
- se
eles morreram novamente ou não;
- se
receberam já um corpo glorioso definitivo;
- se
foram levados ao céu com Cristo na Ascensão.
Portanto, qualquer afirmação sobre o que aconteceu depois
com esses santos não vem de uma frase explícita do Evangelho, mas de interpretações
teológicas e patrísticas.
Para entender Mateus 27,53, é essencial recordar como a
Igreja entende a ressurreição:
- Ressurreição,
na fé católica, não é simplesmente voltar à vida biológica como
antes (como Lázaro, a filha de Jairo, o filho da viúva de Naim).
- A
verdadeira ressurreição, em sentido pleno, é a entrada numa vida
incorruptível, na qual a morte não tem mais poder.
O Catecismo ensina que:
- Deus
dará ao corpo humano uma vida incorruptível;
- a
morte será definitivamente vencida;
- e já
agora, durante a vida terrena de Jesus, algumas ressurreições são sinal
e penhor da ressurreição futura.
Assim, Mateus 27,53 deve ser lido como um acontecimento
real e extraordinário, com valor de sinal escatológico: um sinal
antecipado da vitória definitiva de Cristo sobre a morte.
3. Como os Padres da Igreja leram Mateus 27,53
A Tradição antiga da Igreja não pensou de modo uniforme
sobre esse versículo. Vejamos alguns testemunhos importantes.
3.1. São Jerônimo: cautela contra conclusões apressadas
São Jerônimo, que comenta diretamente Mateus, faz um alerta
importante:
ele diz que não se deve interpretar de imediato esse trecho como se
falasse da Jerusalém celeste.
Em outras palavras:
- Jerônimo
não usa Mateus 27,53 para provar claramente que esses santos já estavam no
céu.
- Ele
insiste no sentido histórico e sinalizador do episódio: trata-se de
um prodígio ligado à manifestação vitoriosa de Cristo.
- Sua
atitude é de cautela: o texto não autoriza uma solução simples e
rápida.
3.2. Orígenes: leitura mística e simbólica
Orígenes lê o episódio em chave mais espiritual:
- Ele
fala de uma cidade verdadeiramente santa não aquela Jerusalém pela qual
Jesus chorou.
- A
ênfase recai mais sobre o simbolismo da cidade santa e da revelação
da glória de Cristo, do que sobre a cronologia exata do destino desses
santos.
Isso significa que Orígenes não se detém em dizer:
“morreram de novo ou subiram imediatamente ao céu.
O foco dele é mostrar que a ressurreição dos santos participa do mistério da
glória de Cristo e aponta para uma realidade mais profunda do que a cidade
terrestre.
3.3. Hipólito: linguagem fortemente espiritual
Nos textos de Hipólito, a ressurreição é descrita em termos
muito espirituais:
- ele
fala de mortos que saem dos túmulos “das coroas terrestres”,
- de
um “novo nascimento espiritual, não carnal”,
- de
entrada no céu por uma porta celestial.
É um testemunho precoce de que a linguagem de subir ao céu e
de ressurreição espiritual já estava presente na reflexão cristã.
Ao mesmo tempo, seu texto aparece num contexto de refutação de heresias, e por
isso deve ser lido com cautela: mostra modos espiritualizados de falar
da ressurreição, não uma explicação direta e simples do que Mateus quis dizer.
3.4. São João Crisóstomo: foco no sinal, não na biografia
São João Crisóstomo, em suas homilias, não desenvolve uma
teoria detalhada sobre o destino final desses santos.
Ele se concentra em outro ponto:
- ressureições
e prodígios são sinais e maravilhas que confirmam a fé e a vitória
de Cristo;
- ele
menciona “os mortos que foram ressuscitados” como ações maravilhosas do
Espírito Santo.
Para Crisóstomo, o essencial é o valor testemunhal do
prodígio, e não o “que aconteceu depois” na história pessoal de cada
ressuscitado.
4. Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino: uma tensão
legítima
4.1. Santo Agostinho (como apresentado por Tomás)
Pelos textos de Santo Agostinho que chegam a nós (e como são
resumidos por São Tomás de Aquino), sua posição tende a ser:
- esses
santos teriam ressuscitado para morrer de novo;
- seria
uma ressurreição extraordinária, mas temporária, semelhante à de
Lázaro;
- a
ressurreição definitiva e incorruptível esperaria o fim dos tempos.
Tomás registra que Agostinho parece pensar dessa forma, e
chega a dizer que os argumentos agostinianos lhe parecem mais cogentes.
4.2. Santo Tomás de Aquino: duas abordagens
Em Santo Tomás, vemos claramente duas apresentações
distintas do problema.
a) No comentário ao Evangelho de Mateus
Ao comentar diretamente Mt 27,52-53, Tomás:
- levanta
a questão: “ressuscitaram e morreram novamente ou não morreram mais?”
- responde
favorecendo a opinião de que não morreram novamente;
- argumenta
que eles ressuscitaram para manifestar a ressurreição de Cristo, e que
seria estranho Cristo trazê-los de volta apenas para uma nova morte, o que
pareceria mais dano do que benefício.
Por isso, no comentário, ele afirma que eles ressuscitaram
para entrar no céu com Cristo.
b) Na Suma Teológica
Na Suma, porém, Tomás apresenta o tema com mais nuance:
- ele
descreve duas opiniões tradicionais:
- a
de que ressuscitaram para não morrer mais;
- a
de que ressuscitaram para morrer novamente (posição atribuída a
Agostinho);
- reconhece
o peso dos argumentos de Agostinho, que lhe parecem mais fortes.
Isso mostra que:
- Tomás
conhece e valoriza uma leitura em que esses santos foram ao céu com
Cristo;
- mas,
como teólogo sistemático, também admite que a questão é discutível e dá
grande peso à interpretação de Agostinho.
5. Então, o que aconteceu com esses santos?
À luz do conjunto da Tradição e da teologia católica,
podemos dizer com prudência:
- Segurança
bíblica:
- Mateus afirma com clareza que eles foram ressuscitados após a ressurreição de Jesus, saíram dos túmulos, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos.
- O destino posterior deles (morte novamente? subida ao céu? corpo glorioso definitivo?) não é definido explicitamente pelo texto.
- Tensão
patrística:
- Os
Padres não são unânimes:
- Jerônimo
é cauteloso e evita concluir rapidamente sobre céu ou não;
- Orígenes
valoriza um sentido mais espiritual;
- Crisóstomo
destaca o valor de sinal;
- Agostinho
inclina-se a uma ressurreição temporária.
- Tomás
de Aquino:
- No
comentário a Mateus, ele prefere a leitura de que não morreram de novo
e foram ao céu com Cristo;
- Na
Suma Teológica, ele expõe também a posição contrária e a considera muito
consistente.
Assim, a resposta mais fiel à teologia católica seria:
- É
certo que eles foram ressuscitados como um sinal da Páscoa de Cristo;
- Não
é certo, com base apenas em Mateus, definir o seu destino final com
absoluta precisão bíblica.
Se quisermos uma formulação simples:
Mateus narra um prodígio real; a Tradição antiga debate o
que aconteceu depois; e Santo Tomás de Aquino registra duas leituras legítimas
dentro da fé católica.
6. A visão da Igreja hoje: sinal pascal, não reportagem
biológica
A exegese católica contemporânea, em continuidade com a
Tradição e iluminada pelo Concílio Vaticano II (Dei Verbum):
- lê
esse texto à luz do gênero apocalíptico e simbólico;
- reconhece,
em muitos casos, o uso de um teologúmeno: uma verdade teológica
exprimida em imagens fortes.
Em linguagem simples:
- A
morte e ressurreição de Jesus são o acontecimento histórico central;
- a
abertura dos túmulos e a aparição dos santos são a tradução visível
do efeito espiritual da Páscoa de Cristo:
- o
véu do Templo que se rasga = fim da antiga ordem cultual;
- os
túmulos que se abrem = fim do cativeiro da morte para os justos.
O Catecismo convida a contemplar esses fatos como penhor
da ressurreição futura: neles, Deus já manifesta, de modo antecipado,
aquilo que realizará plenamente no fim dos tempos.
7. Aplicação espiritual: os túmulos da nossa vida
Não basta entender o texto intelectualmente. Ele foi escrito
para converter o coração.
Esses santos que tinham adormecido podem ser vistos como
imagem:
- das
esperanças mortas,
- das
virtudes esquecidas,
- dos
dons enterrados,
- das
comunidades feridas e adormecidas.
Quando a cruz de Cristo é plantada no solo da nossa
história, acontece um terremoto interior:
- Cristo
desce às nossas mansões dos mortos:
- às
culpas que não confessamos,
- às
feridas que escondemos,
- às
tristezas que nos paralisam.
- Ele
abre os túmulos da nossa alma e nos chama a sair,
- para
“entrar na Cidade Santa”, isto é, na vida da graça, dos sacramentos, da
comunhão com Deus e com a Igreja.
Ler Mateus 27,53, então, é deixar que o Senhor nos pergunte
hoje:
Que sepulcro na sua vida precisa ouvir a minha voz para
despertar?
Talvez seja um pecado antigo, uma ferida afetiva, uma
vocação adormecida, ou a fé de uma família esfriada.
A Páscoa de Cristo não é apenas um fato do passado: é uma força viva que
continua abrindo túmulos e despertando santos escondidos em cada geração.
Conclusão
- Mateus
27,53 nos apresenta um sinal pascal extraordinário: mortos que se
erguem, túmulos que se abrem, a cidade santa visitada por testemunhas da
vitória de Cristo.
- O
Evangelho afirma o fato como sinal; a Tradição discute o depois desses
santos; a teologia, de Santo Agostinho a Santo Tomás, oferece leituras
diferentes, sem romper a unidade da fé.
- Para
nós, hoje, o essencial é acolher a mensagem:
em Jesus crucificado e ressuscitado, a morte foi vencida, os túmulos se abrem, e Deus nos chama a sair da morte espiritual para a vida nova da graça.
Referências
Bíblia de Jerusalém, Mateus 27,52-27:54.
Comentário sobre Mateus, 27,52.
Suma Teológica, III, Q. 53, A. 3.
Catecismo da Igreja Católica, parágrafo 991
Comentário sobre Mateus, 43
Refutação de todas as heresias - Livro 5, 3.
Homilia 29 sobre Romanos
Comentários
Postar um comentário