O Servo Sofredor de Isaías 53 e sua configuração em Cristo no Novo Testamento

 

No Novo Testamento, a figura do Servo Sofredor de Isaías 53 é frequentemente associada a Jesus Cristo, sendo considerada uma profecia que encontra seu cumprimento em Sua vida, paixão, morte e ressurreição. Isaías 53 descreve um servo que sofre injustamente, carrega os pecados do povo e é ferido por nossas transgressões, trazendo cura e redenção. Vejamos como essa profecia se configura em Cristo:

1. O Servo Sofredor e o Sacrifício de Cristo

Isaías 53,4-5 diz: "Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levaram sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados."

No Novo Testamento, especialmente nos Evangelhos, vemos a concretização dessa profecia. Jesus, ao ser crucificado, tomou sobre si as dores e os pecados da humanidade. Mateus 8,17 e 1 Pedro 2,24 citam diretamente Isaías 53 para explicar o sofrimento de Cristo: "Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; pelas suas feridas fostes sarados."

2. O Cordeiro Silencioso

Isaías 53,7 descreve o servo como um cordeiro que é levado ao matadouro, silencioso diante de seus tosquiadores: "Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca."

Nos relatos da paixão de Cristo, encontramos essa descrição perfeitamente refletida. Em Mateus 26,63 e 27,12-14, Jesus permanece em silêncio diante das acusações injustas: "Mas Jesus permanecia em silêncio. Então o sumo sacerdote lhe disse: 'Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deus.'"

3. A Morte Substitutiva

Isaías 53,10-11 fala sobre o propósito divino no sofrimento do servo: "Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias, e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito; o meu servo justo justificará a muitos pela ciência deles, porque as iniquidades deles levará sobre si."

No Novo Testamento, a morte de Jesus é vista como um sacrifício substitutivo pelos pecados da humanidade. Em Romanos 5,8, Paulo escreve: "Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores." E em 2 Coríntios 5,21: "Àquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus."

4. A Ressurreição e Glorificação

Isaías 53,12 conclui com a exaltação do servo após seu sofrimento: "Por isso, eu lhe darei a sua parte com os grandes, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e pelos transgressores intercedeu."

O Novo Testamento declara a ressurreição de Jesus e Sua exaltação à direita de Deus como cumprimento dessa promessa. Em Filipenses 2,8-9, Paulo escreve: "A si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu o nome que está acima de todo nome."

Assim, a figura do Servo Sofredor de Isaías 53 encontra seu pleno cumprimento em Jesus Cristo, cuja vida, morte e ressurreição trazem salvação e redenção a toda a humanidade, conforme a profecia bíblica.

5- Outras Passagens do Novo Testamento que afirmam que Jesus é a configuração do Servo sofredor

O sofrimento vicário inocente do servo por outros e sua preservação por Deus sugeriam empregar esse texto para a interpretação do sofrimento e da morte de Jesus. Isso podia acontecer de forma concisa e estereotipada, como em Paulo, que em Romanos 4,25 recorre a Isaías 53,12 para a interpretação da sorte de Jesus Cristo: “Ele foi entregue por causa de nossas transgressões e ressuscitado para nossa justificação”. Isso também poderia acontecer relacionando o sofrimento inocente e indefeso do servo de Deus com Jesus. Este é o caso em Atos 8,32s. Aqui Isaías 53,7s. é citado segundo a Septuaginta, que enfatiza o sofrimento indefeso do servo, o qual “foi levado ao matadouro como uma ovelha e como um cordeiro que, calado diante do seu tosquiador”, não abriu sua boca, e por cuja humilhação foi revogada sua condenação. Isaías 53 também é citado em detalhes na 1ª Carta de Pedro. Os versículos 2,21-24 fazem referência a várias passagens do texto sobre o servo de Deus que não cometeu nenhum pecado e em cuja boca nenhuma mentira foi encontrada (1Pedro 2,22; Isaías 53,9); que carregou nossos pecados (1Pedro 2,24; Isaías 53,4); por cujos vergões fomos curados (1Pedro 2,25; Isaías 53,5). O cristianismo antigo, portanto, recorreu intensamente ao uso dos escritos de Israel para as interpretações do sofrimento e da morte de Jesus Cristo. Tanto a interpretação do sacrifício cultual como também aquela de um sofrimento e morte vicários encontram-se preparadas nos escritos de Israel. Pela sua referência à morte de Jesus na cruz, elas recebem uma nova importância, já que agora interpretam o sentido da sorte de Jesus Cristo. 

6- Conclusão

Portanto, no Novo Testamento, Isaías 53 é cumprido na pessoa de Jesus Cristo, aquele que carregou nossas dores, pagando um alto preço para nos salvar e nos livrar-nos de toda iniquidade.

Termino este pequeno artigo com citações do Papa Bento XVI e uma citação do grande Doutor Angélico Santo Tomás de Aquino: "

Papa Bento XVI:

"Na figura do Servo Sofredor de Isaías 53, encontramos a profecia mais clara do Messias que haveria de vir. O Servo Sofredor não é apenas um indivíduo que sofre, mas aquele que carrega os pecados da humanidade e oferece sua vida em expiação por eles."

"O sofrimento e a morte do Servo Sofredor são redentores, pois abrem o caminho para a nossa salvação. Através de sua morte na cruz, Jesus Cristo, o Servo Sofredor definitivo, venceu o pecado e a morte e nos deu a vida eterna.

São Tomás de Aquino: "O Servo Sofredor é a manifestação do amor infinito de Deus pela humanidade."


Referências:

Schmid, Konrad; Schröter, Jens. O surgimento da Bíblia: Dos primeiros textos às Sagradas Escrituras (Portuguese Edition) (p. 335). Editora Vozes. Edição do Kindle.

Catena Aurea de Santo Tomás de Aquino

Bíblia TEB, editora Loyola


Autoria: Canal Teologia, Bíblia e Doutrina da Igreja.


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